domingo, março 18, 2012

SOBRE AMOR E PÉS


Recentemente decidi por recomeçar a leitura do livro O corpo tem suas razões, de Thérèse Bertherat, que havia pausado no final do ano anterior por conta das razões que busco para não entender meu próprio corpo. E então cheguei novamente ao capítulo em que a autora relata a trágica morte de seu marido. Parei no momento em que ela entra no quarto do hospital que o esposo se encontra após cirurgia e relata: “agora ele está numa cama. Seus pés saem para fora do lençol. Cubro-os. Sei que ele não gostaria de mostrar seus pés aqui”.

Imediatamente me lembrei de um episódio em que a terapeuta me pediu para colocar no papel características que desejo encontrar em meu namorado e, na coluna ao lado, aquelas que não se encaixavam no perfil da pessoa que busco. Ela se referia a um futuro namorado, pois havia terminado um relacionamento naquele período. A terapeuta achava que eu precisava entender o que procuro e, como escrever costuma clarear minha mente, tentou usar esse método.
Achei racional demais na época. Fazer uma relação das características que espero que uma pessoa tenha? Sair por aí classificando se alguém possui ou não um item da minha lista particular de características desejadas não me parecia agradável. Nada feito. Deixei a lista de lado e com ela a organização das ideias a respeito do assunto.
E então a frase de Thérèse ficou em minha cabeça por dias, fazendo-me refletir sobre aquele momento da terapia.

Sei que ele não gostaria de mostrar seus pés aqui.”
Uma frase carregada de amor. De zelo. De afeto. De conhecimento e entendimento do outro. De compreensão do desejo do ser amado. Uma frase com ação. Ação de estabelecer o conforto. De respeitar a vontade. De manter a cumplicidade até o fim.
Tão singelas quanto o ato de cobrir os pés, as poucas palavras me mostraram que já encontrei o que buscava. Há muito tempo. 




segunda-feira, dezembro 19, 2011

QUALIFIQUE O VERBO



"As palavras fogem
Se você deixar
O impacto é grande demais
Cidades inteiras nascem a partir daí
Violentam, enlouquecem ou me fazem dormir
Adoecem, curam ou me dão limites
Vá com carinho no que vai dizer"


[As palavras, Vanessa da Mata]

domingo, dezembro 04, 2011

DO QUE SÃO FEITAS AS LEMBRANÇAS

Voltando da escola um dia, dei cara com um gatinho abandonado no terreno em frente a minha casa.
Eu tinha uns 6 anos e achava que poderia salvar todos os animais necessitados que encontrava pela frente. 
O coitado estava tão esfomeado, que seu grito de socorro já soava fraco, ao invés de pidão e carente. Peguei o bichinho e levei para casa.
Não me lembro as artimanhas que tive de fazer para mamãe autorizar a entrada do filhote, mas lembro-me de seus esforços em me ajudar a cuidar dele. Dei comida, banho, arrumei agasalho e uma boa cama. Eu tinha certeza que meus cuidados renderiam muitos anos de vida.
Passei dias alimentando o afeto pelo gato; ele melhorou, ficou saltitante e saudável. Tinha cumprido minha missão de ser útil e salvar o bichinho. 
De repente chego em casa e aconteceu uma tragédia, recebo a notícia de que ele morreu. Tristeza geral, eu não entendia como podia ter desandado a melhora. 
Enterrei o coitado no mesmo local que havia encontrado, após uma cerimônia longa e digna, com uma amiga compadecendo do sofrimento. 
Passei tempos sentida com a perda do bichinho e frustrada com a incapacidade de cuidar dele. E passei a não gostar de gatos. Nunca mais quis ter um, eles não possuem 7 vidas e morrem sem explicação.


Minha mãe diz que o gato não viveu dias e sim horas.
"Ele estava faminto, doente, quase sem pêlos. Você ficou tão comovida com a situação, que seria impossível te impedir de cuidar dele. E eu também sabia que se a gente não fizesse algo, era certo que ele morreria.
Então você cuidou do gato, fez tudo que podia. Ele deu uma animada, parecia que estava respondendo aos cuidados, mas logo morreu, na mesma noite. Cada hora que ele viveu, parecia um dia para você. O tempo para crianças é diferente."




Na infância é difícil escolher quais lembranças guardar, o que valorizar mais e como temporizar corretamente. Horas parecem dias e as emoções são mais intensas. 
Depois que a gente cresce, dá para enxergar outras interpretações dos acontecimentos e selecionar o que é importante ser lembrado. Bom mesmo é quando a gente entende que as alegrias e tristezas podem ter o peso que a gente quer que tenham em nossas vidas.